Água vira oportunidade de investimento em meio à crise hídrica e perspectiva de escassez no futuro

Estadão
28/08/2021

Cresce o número de fundos de investimento focados em empresas que atuam para melhorar a gestão e a distribuição da água; agenda de sustentabilidade atrai cada vez mais investidores

RIO – Como todo produto com risco de escassez, a água começa a aparecer como oportunidade de investimento para os setores financeiro e produtivo. Seja no saneamento, segundo maior setor que utiliza o insumo, seja em fundos dedicados, a água no Brasil ainda não chegou a atingir um preço justo, segundo especialistas, mas aos poucos o mercado brasileiro segue a tendência internacional de entender que o produto pode ficar mais escasso. Os sinais mais emblemáticos vêm dos reservatórios das hidrelétricas, que estão com níveis críticos, mas outros setores produtivos, que disputam a água com a geração de energia, como agricultura e o próprio saneamento básico, começam a ser afetados.

A primeira iniciativa de um fundo de investimento dedicado à água veio de fora, pelas mãos das gestoras BNP Paribas e BlackRock, no ano passado. A trilha foi seguida por alternativas locais, da XP e do Itaú. A ideia é investir em empresas que trabalhem para o uso mais eficiente da água, dentro ou fora do Brasil, na esteira do avanço da agenda ESG (sigla para ambiental, social e governança, em inglês) junto aos investidores.

No mês passado foram lançados dois fundos, o Trend Água Tech, da XP, e o Vitreo Água, da plataforma de investimentos Vitreo. Já a Itaú Asset, gestora do banco, estreou no segmento em dezembro do ano passado, quando lançou o Itaú Index ESG Água, cujo patrimônio soma R$ 21,2 milhões e acumula rentabilidade de 17,89% nos seis meses de existência.

No caso da XP, o fundo replica outro fundo, o Invesco Water Resources, que reúne 36 empresas na bolsa americana Nasdaq que atuam com tecnologias de extração, tratamento e distribuição de água. Uma das empresas está fazendo a dessalinização da água do mar, segundo Henrique Sana, estrategista de índices & ETFs (fundo de índices) da XP

“Existe uma demanda grande no mundo por investimentos em fundos temáticos. O tema água já tem globalmente US$ 42 bilhões investidos. Só nos últimos 12 meses foram investidos US$ 9 bilhões nele”, diz Sana. “Talvez o grande motivo que encoraje os investidores é a temática ESG, que está relacionada ao meio ambiente e à escassez da água no futuro.”

De acordo com a responsável pela área de Produtos ESG da XP, Beatriz Vergueiro, muitas indústrias usam a água de maneira irresponsável, e, diante da crise hídrica e do aquecimento global, o preço da água tende a subir. A ideia é investir em empresas que por meio da tecnologia vão revolucionar a maneira que usamos a água hoje em dia. 

”É nossa responsabilidade prever a tendência do futuro e trazer para nosso investidor”, afirma Vergueiro, lembrando que apesar de 70% da superfície da Terra ser coberta de água, apenas 3% dela é de água potável e 40% são usados pela agropecuária.

Fundos estão em linha com objetivos sustentáveis da ONU

Há mais de 15 anos atuando no campo de investimento responsável, a Itaú Asset lançou o Itaú Index ESG Água para dar acesso aos investidores a um dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS 6) estabelecidos pela ONU em sua Agenda 2030, que busca garantir a disponibilidade e gestão sustentável de água e saneamento para todas as pessoas. O fundo tem aplicação mínima de R$ 1 e é restrito a investidores qualificados. Atualmente o fundo tem patrimônio de R$ 21,2 milhões e rentabilidade de 17,89% nos seis meses de existência. 

O Itaú Index ESG Água oferece acesso a cerca de 50 empresas em mais de 10 países que estejam relacionadas de forma positiva ao negócio de água, de acordo com os objetivos da ONU, sendo distribuídos igualmente entre dois grupos: Serviços de Água & Infraestrutura e Equipamentos & Materiais de Água. As duas são áreas de desenvolvimento que podem ajudar a resolver a crescente crise da falta d’água. 

“Em praticamente seis meses superamos o número de 700 cotistas, que já aplicaram mais de R$ 20 milhões no período, e a tendência é de uma procura cada vez maior por este tipo de investimento, não só de água, mas também de outras frentes como fontes sustentáveis de energia, por exemplo”, diz o diretor da área de Estratégia Beta e Integração ESG da Itaú Asset, Renato Eid Tucci.

Mesmo antes do casamento da plataforma de investimentos Vitreo e a Empiricus, que aguarda a aprovação do Banco Central, a casa de análises já serve de inspiração para a criação de fundos, como o Vitreo Água. O fundo foi lançado há um mês e é dedicado a empresas que estão inseridas na cadeia da água, como saneamento, purificação, dessalinização, ou que vendam  tecnologia relacionada ao setor. 

Entre as brasileiras, apenas a empresa de saneamento Sanepar integra a carteira. A maior parte do fundo (80%) é formado por um derivativo que compra  ETFs (fundo de índice) no exterior, uma espécie de pacote com várias empresas ligadas à água. Em menos de um mês, o fundo acumula rentabilidade de 4,6%. 

Segundo o sócio fundador e chefe de Investimentos da Vitreo, George Wachsmann, o fundo ainda não atraiu muitos clientes, cerca de 500 até agora, ao contrário de outros fundos como o de crédito de carbono ou de hidrogênio, que rapidamente alcançaram milhares de clientes.

“Uma das hipóteses (da baixa adesão) é um problema geracional, porque as pessoas que têm dinheiro para investir não estão tão preocupadas nesse assunto, não têm uma preocupação legítima, as novas gerações estão mais ligadas”, avalia.

A água também é um bem finito

O fato de o Brasil possuir 12% de toda a água doce do planeta talvez explique o mito criado de que esse bem no País é infinito, o que há tempos já foi derrubado pela ciência e vem sendo a cada dia mais evidenciado nas recorrentes crises hídricas. Primeiro em 2001, depois em 2014, e este ano, o País volta e meia se vê diante de um problema que ameaça não apenas o fornecimento de energia, mas toda uma cadeia econômica, principalmente o agronegócio, responsável por quase 70% de toda a água consumida no País.

O investimento em soluções baseadas na natureza também vem se tornando uma via para preservação da água, principalmente os que visam recuperar os mananciais (rios, lagos, represas, lençóis freáticos), que são as fontes produtoras. Direcionar parte da tarifa do saneamento para essa recuperação é uma das soluções sugeridas pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que cita como iniciativas nesse sentido no País a destinação de 1,54% sobre a receita da empresa de água e saneamento do Balneário Camboriú (SC).

“Balneário Camboriú está viabilizando a recuperação com um programa estratégico para os mananciais junto ao setor de saneamento. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) também tem uma janela de oportunidade, com os responsáveis pela politica pública se debruçando sobre isso. Há uma boa perspectiva”, diz o coordenador do IDS, Guilherme Checco, que vê hoje o Brasil cuidando mal dos mananciais e uma ausência de responsabilidade sobre a questão.

O avanço de Balneário Camboriú abre uma frente a ser explorada pelas empresas brasileiras, hoje representadas no segmento pelas companhias de saneamento, que reúnem grande potencial de valorização na bolsa de valores após a aprovação do marco regulatório do setor, e as possibilidades de privatização.

O mercado é grande

De acordo com o Sustainable Development Goals Report 2020, da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 500 milhões de pessoas sofrerão com a escassez de água até 2050. Hoje já existem 2,2 bilhões sem acesso à água potável. Os números indicam que ainda há muito a fazer sobre o tema, principalmente levando em conta as transformações do clima e o aumento populacional, que aponta para o crescimento da demanda por água em 1% ao ano no mundo até 2040.

“As empresas perceberam que precisam se preocupar com a água. No Brasil existe uma percepção errada de que a água é abundante e não precisa fazer nada, que é ilimitada. Mas a questão agora é usar cada vez menos água no processo, como vem ocorrendo no setor de bebidas, por exemplo”, diz Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para Desenvolvimento Sustentável (Cebds).

Para o Instituto Escolhas, há urgência em precificar a água, e para isso nada melhor do que mostrar quanto custaria ao País deixar de contar com esse recurso. A entidade simulou quanto a escassez de água custaria aos brasileiros na bacia do rio São Francisco no setor de energia. Para a geração termelétrica, resultaria em um prejuízo anual de até R$ 100 milhões ao gerador, que seria repassado ao consumidor nas tarifas de energia. Para a geração hidrelétrica, a falta de água na bacia resultaria na perda energética, com impactos de até R$ 2,5 bilhões por ano aos geradores, o que representariam um desequilíbrio para o Sistema Interligado Nacional (SIN) e consequentes impactos na tarifa de energia e no bolso do consumidor

professor da Coppe/UFRJ, Marcos Freitas, concorda que o Brasil não dá valor à água, e poderia estar numa situação bem melhor do que se encontra hoje se a gestão desse recurso fosse eficiente. Para ele, não há sentido estratégico em precificar o insumo da mesma maneira em todas as 12 bacias hidrográficas brasileiras e sem levar em conta a sazonalidade.

“Deveria aumentar de preço nos anos secos, como a tarifa de energia, e cada bacia hidrográfica deveria ter sua própria avaliação. Não pode custar a mesma coisa na bacia Amazônica e o mesmo preço aqui em baixo (Sudeste)”, afirma. Desta maneira, ele acredita que inclusive os reservatórios das hidrelétricas seriam mais bem preservados.

 

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

SCS - Quadra 01 - Bloco H - Edifício Morro Vermelho - 16º andar - CEP: 70399-900 - Brasília-DF - Tel/Fax.: 55 61 3022-9600

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?