A crise hídrica e o impacto econômico nas famílias

O Estado de S.Paulo
Por Anderson Figueiredo da Costa*
13 de outubro de 2021

Não é de hoje que convivemos com problemas no armazenamento dos reservatórios e com constantes acionamentos das termoelétricas por conta da crise energética. Esses fatores são importantes e impactam diretamente o consumidor final, pois as famílias passam a pagar mais caro por produtos e serviços que demandam energia ou recurso hídrico, desconsiderando ainda o impacto direto na inflação.

Os índices dos reservatórios que abastecem o Estado de São Paulo, por exemplo, em 04/out/2011 havia uma média de 66,9% contra os atuais 37,7% no mesmo período, mas, estes níveis ainda são melhores que dos anos de 2014 e 2015 em que a média era 7,1% e 11,5% respectivamente e que geraram falta de abastecimento em algumas regiões do estado. Os dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), demonstram que os níveis atuais não estão tão distantes de 2018, porém preocupante porque ainda temos um longo tempo até o período de chuvas e por já termos o reservatório da Cantareira com um volume abaixo de 30% e sendo atualmente o mais preocupante.

É possível observar que não existe um planejamento para controle dos reservatórios, mas essa falta não é exclusividade do Estado de São Paulo, no Estado de Minas Gerais o de Furnas que é responsável por 17,21% da geração de energia elétrica da região Sudeste/Centro-Oeste e que atualmente está com 13,68% da sua capacidade, já no Estado do Tocantins o de Serra da Mesa que é responsável por 17,09% da geração de energia elétrica da mesma região e que atualmente está operando com 24,10% da sua capacidade segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A crise elétrica pode ser diretamente atrelada a crise hídrica e que ainda conta com problemas nos órgãos governamentais no controle e distribuição de água e energia elétrica. Segundo o Instituto Trata Brasil, 39,2% da água tratada para consumo é perdida ao longo de sua distribuição no Brasil e com base na planilha de perda de energia técnica de Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em média se perdeu 13,54% em 2021 no Brasil, essa perda é aquela relacionada ao efeito Joule, transformadores e dielétricas por exemplos, mas ainda temos a perda de energia não técnica que basicamente ocorre por conta dos “gatos” feitos pela população brasileira e que representa 4,52% na média nacional. Sendo assim, temos uma perda de 39,2% na distribuição da água potável e 18,06% na distribuição de energia, números que são extremamente elevados para os dias atuais e com os recursos tecnológicos disponíveis no mundo.

Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) a matriz elétrica brasileira é composta por 65,2% provenientes de recursos hídricos em 2021 (conforme imagem) e com o agravamento da crise hídrica pode haver em um futuro breve, possíveis racionamentos de energia elétrica e de abastecimento de água, sendo o abastecimento um ponto crítico porque irá impactar diretamente muitas famílias, isso sem levar em consideração que quase 35 milhões de brasileiros já não tem acesso a água potável e aproximadamente 100 milhões sem acesso à coleta de esgoto, podendo assim ter um impacto direto na saúde por uso de água imprópria, exposição a esgoto ou armazenamento indevido da água, como a dengue por exemplo, que atingiu o triplo de mortes em jul/2021 ao comparar com o ano 2020 e com um registro de 6.408 casos segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo.

Esses dados apresentam que a perda ou redução de recurso hídrico impacta diretamente no fornecimento de energia elétrica à população e para compensar esse problema o governo a aciona as termoelétricas que gera poluição ao meio ambiente por conta da queima de combustível em alguns casos. Para esse acionamento em 2021 a ANEEL estima um custo adicional de R$9 milhões, valor esse que é repassado direta e indiretamente para o consumidor final e que pode impactar em um aumento superior a 20% na conta de energia da população. Segundo dados da própria ANEEL (gráfico abaixo) o valor R$/MWH é 44% maior do que em 2011, sendo assim o consumidor teve o valor da energia que utiliza em seu lar quase duplicado nesse período, gerando assim as diferentes bandeiras tarifárias para cobrança dos valores. Neste mesmo período o salário-mínimo do brasileiro em 2011 representava 49,54% do atual em 2021 que é de R$1.100,00, mas, a inflação segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi 62,82% no acumulado desses 10 anos.

Portanto é importante cuidarmos dos recursos hídricos de nosso país, porque afetam diretamente o abastecimento de água e energia, sendo esse último um fator impactante na renda das famílias, pois para ser suprido o governo é obrigado a utilizar as termoelétricas que são mais caras e mais poluentes ao meio ambiente. Com isso, há o impacto direto financeiro do produtor ao consumidor, causando um aumento na inflação, deixando os itens mais caros e o poder de compra do brasileiro cada vez menor.

*Anderson Figueiredo da Costa, doutorando em Engenharia e Ciências dos Materiais e  coordenador dos cursos de Engenharia da Universidade São Judas

 

 

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